Estar grávida é algo inexplicável.
É uma experiência única e diferente em todas as vezes que se tem a sorte de
viver em estado de graça.
É fantástico para algumas mulheres, e uma chatice para outras.
Algumas adoram sentir o pirralho a crescer e a mexer dentro da barriguita,
outras só querem que chegue o dia em que o rebento sai cá para fora porque já
não há posição para nada.
Há as grávidas que não enjoam uma única vez, e aquelas que têm de dormir
com o baldinho na mesa-de-cabeceira porque já não sabem o que é acordar sem uma
viagem à vila de S. Gregório. Algumas têm a sorte de não ficar com registos
corporais estriosos pelo corpo, outras ficarão marcadas para o resto da vida
com riscas de cores, espessuras e tamanhos variáveis. Umas acordam a meio de
uma noite de dezembro com desejos de cerejas, ou a querer uma sandes de areia
com vidro (estranho, mas acontece), e aquelas que abençoam os maridos com
apetites perfeitamente normais.
Mas depois também há aquelas coisas que são comuns a todas as pré-mamãs;
sejam elas de primeira, segunda ou centésima viagem...
Há aqueles momentos de frustração, porque já não se consegue chegar com as
mãos aos pés para calçar as meias, porque a barriga já está enorme, e porque as
costas já doem, e porque ficamos mal dispostas, e porque, e porque, e porque...
Porque a paciência já não chega para tudo, pronto! Não chegam as mãos aos pés e
não chega a paciência para lidar com tudo e todos.
A culpa é das hormonas, dizem os especialistas...
Há aqueles picos de felicidade, em que nos sentimos as grávidas mais lindas
do mundo! Mesmo com as olheiras provocadas pelas noites mal dormidas porque,
convenhamos, a criança ainda não nasceu, mas já impõe posições e horas
permitidas para dormir. Sentimo-nos maravilhosas no nosso corpo redondinho,
mesmo com todos os quilos a mais porque, convenhamos, carregamos em nós o amor
da nossa vida e isso justifica um aumento de peso considerável.
Hormonas!!!
Há aquelas alturas que sabes que não vai ser difícil ser mãe, porque até
sabes mudar as fraldas de todos os bebés, dás papa aos priminhos todos e
adormeces os filhos das amigas. Mas a sensação de insegurança atormenta-te os
pensamentos porque achas que vais estar cansada, e o bebé vai ficar assado
porque a fralda ficou ao contrário, vai chorar porque tem fome, porque a
vizinha te disse que o teu leite pode ser fraco, e depois choras tu porque não
vais conseguir adormecer o teu filho.
Raios, ainda faltam dois meses para parir, e já adivinho noites em branco
com a mama na boca da criança! Quem inventou isto das hormonas devia estar de
esperanças 13 meses por ano, só para ter um gostinho desta instabilidade
emocional!!!
Mas até aqui, tudo bem ou mais ou menos... Tudo isto são coisas que quase
todas as mamãs "to be" sabem que vão acontecer... Então e aquelas coisas que não nos contam?
Aquelas que não se partilham? Umas vezes por vergonha, outras porque parece
óbvio depois de se passar por elas, ou até porque qualquer mulher que já foi
mãe sabe que há lá com cada coisa que nem vale a pena mencionar para não dar um
ataquinho à prenhuda.
Hormonas, quem?
Toda a gente sabe que as grávidas vão mais vezes fazer o seu xixizinho. No
início as hormonas (outra vez estas safadonas) são as responsáveis pelas
viagens constantes ao mictório; no último trimestre, é porque a bexiga está a
ser esmagada pelo ser pequenino (dizem aqueles que não se sentem a rebentar
pelas costuras) que nos cresce no ventre. Isto é matéria mais que sabida e
partilhada publicamente no universo da maternidade. O que não nos contam é que
mais difícil do que gerir as idas ao quarto de banho pelas noites fora e dias
adentro, é conseguir higienizar minimamente as baixezas sem ficar com os bafos
de fora.
E por falar em baixezas: toda a grávida sabe que vai chegar aquele dia
(mais depressa do que se pensa) em que já só se vê a ponta dos pés, e que a
nossa fiel amiga deixará de estar ao alcance da vista, certo? Certo. O que
muitas grávidas não sabem é que, longe da vista, longe de humidades. Com isto,
entenda-se que a maioria das pré-mamãs começa a sofrer de securas e comichões
alarmantes e fogosas, nada agradáveis a quem já mal chega a tal sítio para
limpar o chichizinho! E depois é a briga até achar o creme que realmente cura
esta inquietude!
Falemos também de pêlos e cabelos. Todas as grávidas sabem que a gravidez
provoca alterações hormonais (jura?! onde é que eu já li isto?...). Com essas
alterações, o cabelo pode ficar mais brilhante, ou mais seco, mas é comum os
restantes pêlos corporais crescerem mais, mais escuros e em todo o lado. O que
não nos contam é que os cortes de cabelo "lá em baixo" também passam
a ser tarefa impossível. Primeiro, porque não chegamos lá para o fazermos
sozinhas. Segundo, porque a zona está tão sensível que pensar em expô-la a um
arrancamento com ceras, faz o corpo tremer de cima a baixo...
Relativamente à nossa barriga, esta passa a ser coisa do povo! Se vais ser
mamã, sabes que muitas pessoas têm o hábito de dar festinhas na barriga;
provavelmente também tu gostas de o fazer às tuas amigas grávidas. O que não
nos contam é que há pessoas sem noção do conceito "espaço pessoal" e
que se agarram ao teu ventre como se de um campo gravitacional se tratasse.
Estejas tu de pé, a chegar ao café, estejas sentada a apreciar uma refeição com
o teu marido, em pleno restaurante, estejas em casa de pijama a descansar de uma
tarde de contrações.
Verdades, verdadinhas, contadas por uma grávida de sete meses.
E dirão talvez as mães mais galinhas: credo, até parece que a gravidez é
uma coisa má! Não mamãs, não é. É a melhor coisa do mundo! Pelo menos, até ter
o nosso príncipe ou princesa nos braços.
Há outras coisas que não nos contam.
Todas sabemos que os primeiros pontapés do nosso bebé surgem em alturas
diferentes; mas não nos contam como é maravilhoso sentir o primeiro pontapé a
sério. Não contam, porque não podem! Não conseguem... É inexplicável.
Todas sabemos que as ecografias são especiais, porque conseguimos ver o
bebé que cresce em nós. Mas não nos contam que o amor que se sente no peito é
maior que qualquer outra coisa no mundo. Não contam, porque não podem! Não conseguem...
É imensurável.
Todas as mães sabem que esta é a melhor coisa que podia acontecer nas
nossas vidas. Mas não nos contam o quão assustador é. Não contam, porque não
podem! Não conseguem...
Porque nada é ao mesmo tempo tão assustador quanto desejado; tão
desesperante como motivador, tão cansativo como tranquilizante.
Nada é tão tudo como os nossos filhos!
E isto é só o que consigo
contar-vos...(Publicado originalmente no blog Estórias Desencatadas, a 11/01/2017)

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